PCC, Deolane e Fintechs: R$ 140 Mi em Fraudes Reveladas

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A Polícia Civil de São Paulo divulgou os resultados de uma investigação detalhada que expõe como o uso de fintechs potencializou a movimentação de recursos do Primeiro Comando da Capital (PCC), estabelecendo uma intrincada rede que conecta a cúpula da facção criminosa à advogada e influenciadora Deolane Bezerra Santos. As autoridades paulistas, ao analisarem um período de quase uma década de operações financeiras, constataram que as ferramentas oferecidas pelas empresas de tecnologia financeira foram determinantes para o “aumento exponencial” dos valores ilícitos gerenciados pelo grupo. As informações estão detalhadas na representação judicial da Polícia Civil, que culminou em pedidos de prisão para os suspeitos, entre os quais Deolane e Marco Camacho, conhecido como Marcola ou Narigudo, apontado como o principal líder da organização.

Após seu retorno de uma viagem à Roma, a influenciadora foi detida em sua residência no prestigiado condomínio Tamboré, na Grande São Paulo. A prisão ocorreu na manhã desta quinta-feira, dia 21, como parte das ações da Operação Vérnix, uma força-tarefa voltada para o combate à lavagem de dinheiro e ocultação de bens. O aparato judicial não apenas decretou a prisão de Deolane, mas também de outros cinco investigados. Entre eles está o próprio Marco Camacho, que, embora já custodiado em uma penitenciária de segurança máxima em Brasília com uma pena superior a 300 anos, figura como alvo primordial da mesma operação. As acusações buscam desvendar o complexo emaranhado financeiro que possibilitava a ampliação das atividades criminosas do PCC.

PCC, Deolane e Fintechs: R$ 140 Mi em Fraudes Reveladas

A percepção dos investigadores sobre o “aumento exponencial” no volume de dinheiro ilícito, facilitado pelas fintechs, baseou-se em uma extensa análise das movimentações financeiras de Deolane e do grupo de entidades — tanto pessoas físicas quanto jurídicas — utilizadas por ela. A investigação focou especialmente no período compreendido entre 9 de julho de 2022 e 9 de maio de 2024. A confrontação desses dados com relatórios de giros financeiros anteriores, datados de 2018 a 2022, delineou uma alteração drástica no panorama econômico da advogada e de suas empresas. O segundo semestre de 2022, em particular, marcou um incremento significativo em créditos e interações financeiras que, segundo a polícia, desviaram-se de um padrão regular.

Movimentações Financeiras Atípicas e Redes de Empresas

Um primeiro levantamento apontava para transações financeiras com certas irregularidades, porém, em escalas mais limitadas, não ultrapassando o valor de R$ 1 milhão. Entretanto, um segundo relatório revelou um salto exponencial nos recursos. Mais de R$ 30 milhões, segundo os registros policiais, foram recebidos de empresas de meios de pagamento, com destaque para as fintechs. A expertise da polícia em cruzamento de dados bancários e fiscais foi crucial para identificar padrões típicos de estratégias de lavagem de dinheiro, como o fracionamento de valores, a pulverização de recursos em múltiplas contas e a circularidade, onde o dinheiro percorre diversas transações para mascarar sua origem. Ademais, transações recorrentes foram identificadas com empresas cujas operações pareciam incompatíveis com sua natureza declarada.

No centro desse esquema estavam a PagFast Cobrança e Serviços em Tecnologia Ltda., Lucas Cosméticos Ltda. e Jarinu Anúncios do Brasil Ltda. Essas companhias, conforme apurado, realizaram transferências de mais de R$ 5,7 milhões para a Bezerra Publicidade e Comunicação Ltda., evidenciando um fluxo coordenado de recursos. A perícia técnica, cujos laudos foram anexados ao inquérito, corroborou a existência de uma sofisticada “malha financeira” estruturada em torno de Deolane Bezerra Santos. Esta rede envolvia a interligação de múltiplas pessoas físicas e jurídicas, responsáveis por movimentar globalmente mais de R$ 140 milhões em créditos e débitos. Este volume colossal de operações ressalta a complexidade e a escala do alegado esquema de lavagem. O grupo investigado englobava cinco empresas onde a advogada figura como sócia, além de outros 14 alvos que tiveram participação na Operação Vérnix.

Adaptação do Crime Organizado ao Cenário Digital

As autoridades policiais enfatizam que o crescente recurso a fintechs por facções criminosas como o PCC ilustra a agilidade com que essas organizações se adaptam e exploram o ambiente financeiro digital contemporâneo. Essa tendência acende um alerta sobre a necessidade premente de que os órgãos de investigação e controle desenvolvam e mantenham uma atuação permanentemente atualizada, tecnicamente especializada e altamente coordenada para desmantelar esses novos formatos de atuação criminosa. Apesar de já terem utilizado em outras frentes a Operação Carbono Oculto, que investigou a apropriação do setor de combustíveis pelo PCC e também o emprego de fintechs, os investigadores optaram por não empregar este exemplo neste caso específico, mantendo o foco integral na Operação Vérnix e suas próprias particularidades.

As Conexões com o Coração da Facção

A investigação se aprofundou na constatação de que as contas bancárias de Deolane Bezerra dos Santos possuíam ligações com a movimentação de capital da transportadora Lado a Lado. Esta empresa é apontada como estando sob controle direto dos irmãos Marco Willians Herbas Camacho (Marcola) e Alejandro Herbas Camacho (Júnior), fortificando os indícios da ligação entre a advogada e a estrutura central da facção. A partir desta descoberta crucial, a Polícia Civil de São Paulo empreendeu uma análise minuciosa de todas as empresas registradas em nome dos investigados e de seus familiares próximos. Cinco empresas específicas foram identificadas com algum tipo de envolvimento societário por parte de Deolane, tornando-as pontos chave da apuração.

Empresas de Fachada e Padrões de Dissimulação

Uma dessas empresas, registrada no nome de Deolane na cidade de Santo Anastácio, era utilizada como endereço por outras doze pessoas jurídicas. A localização da sede — um imóvel com estrutura simples de madeira na periferia — foi interpretada pela polícia como um forte indicativo de que todas as empresas associadas à influenciadora serviam apenas como fachadas, projetadas para mascarar a verdadeira origem e destino do dinheiro. O contador responsável por todas essas empresas, Eduardo Affonso Rodrigues, também foi inserido no rol de investigados. Em Martinópolis, outra empresa de Deolane tinha seu registro em um local que abrigava mais 15 companhias, seguindo o padrão que sugere operações de dissimulação. Ainda, um terceiro endereço ligado ao contador revelou o registro de nove outras empresas, compondo uma vasta teia de possíveis dissimulações.

Depósitos Fracionados e Relações Suspeitas

A vida pessoal da influenciadora também foi objeto de escrutínio. Os policiais constataram que Deolane é mãe de um filho com um ex-presidiário, a quem ela já havia defendido judicialmente. Em meio às investigações, Deolane registrou um boletim de ocorrência, afirmando que seus dados pessoais estariam sendo indevidamente usados para a abertura de contas em diferentes bancos. Contudo, os policiais envolvidos na Operação Vérnix levantam a hipótese de que, dada a sua “estreita conexão criminosa” com os investigados, Deolane possa ter sido alertada sobre os levantamentos e investigações que estavam em andamento.

As investigações financeiras também revelaram uma prática conhecida como fracionamento de depósitos. Entre os anos de 2018 e 2021, as contas de Deolane Bezerra Santos receberam um total de R$ 1,067 milhão por meio de depósitos em espécie, todos com valores inferiores a R$ 10 mil. Este método, frequentemente utilizado em esquemas de lavagem, visa evitar a comunicação automática de operações financeiras de grande valor às autoridades. A polícia notou que nenhum dos depósitos em espécie não identificados nas contas da influenciadora alcançou ou excedeu o patamar de R$ 10 mil. Em pelo menos três ocasiões comprovadas, os investigadores demonstraram que depósitos feitos na conta da advogada foram coordenados por Everton de Souza, vulgo Player, a mando de Ciro César Lemos – identificado como um operador da transportadora vinculada ao PCC –, conforme revelado por mensagens apreendidas. Essas evidências sublinham o método meticuloso de camuflagem de transações ilícitas.

A Lavagem de Ativos: Bens de Luxo e Atuação da Família

O esquema de lavagem de dinheiro empregava, conforme a polícia, uma rede de “laranjas” para mascarar a titularidade e a origem dos vultosos recursos financeiros. As apurações indicam que Deolane teria adquirido uma série de bens de luxo, incluindo dois veículos Land Rover, um automóvel Porsche avaliado em R$ 1 milhão, e um terreno de valor considerável no condomínio Tamboré, evidenciando o padrão de vida financiado pelos recursos ilícitos. A irmã da advogada, Dayanne Bezerra dos Santos, também estaria envolvida na movimentação de dinheiro do grupo. Em 2023, Dayanne tentou sacar R$ 1 milhão em espécie de uma agência do Itaú, um movimento que gerou suspeitas e a consequente reação da instituição bancária. O incidente resultou na concessão de um prazo de 60 dias para que Deolane encerrasse sua conta, onde, segundo o inquérito, ela mantinha cerca de R$ 10 milhões em investimentos.

A influenciadora supostamente utilizava uma parcela desses fundos através da Bezerra Publicidade e Comunicação Ltda., totalizando, no mínimo, R$ 12,9 milhões em movimentações, de acordo com as informações contidas no inquérito policial. Além disso, a advogada mantinha vínculo com outras empresas como a Deolane Bezerra Holding Participações Ltda. e a Bezerra Produções Artísticas Ltda., que supostamente integrava a complexa teia de empresas. O vasto esquema de lavagem de dinheiro incluiria também outros empreendimentos aparentemente legítimos, como dois lava-rápidos, uma pizzaria, um restaurante, três empresas no setor financeiro e de cobrança, e uma empresa de roupas. Esta diversificação servia para dificultar o rastreamento dos recursos ilegais e conferir-lhes uma aparência de legitimidade no mercado.

Deflagração da Operação Vérnix e Busca Internacional

A Operação Vérnix foi posta em prática nas primeiras horas da manhã desta quinta-feira, dia 21, com o objetivo de executar seis ordens de prisão contra alvos chave da investigação. Entre eles estavam Deolane Bezerra Santos, Marco Herbas Camacho (Marcola Narigudo), seu irmão Alejandro Camacho, e seus sobrinhos, Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho. Conforme os levantamentos policiais, Paloma foi localizada na Espanha e Leonardo na Bolívia. A Justiça brasileira prontamente agiu, solicitando a inclusão dos nomes de ambos na Difusão Vermelha da Interpol. Esta medida busca assegurar a captura e extradição dos dois para o Brasil, estendendo o braço da lei a nível internacional e reforçando a luta das autoridades no combate à criminalidade organizada nas grandes cidades e no exterior.

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Este complexo caso ressalta a urgente necessidade de constante inovação e aprofundamento nas estratégias de combate à lavagem de dinheiro, especialmente diante da sofisticação e da adaptabilidade do crime organizado às novas tecnologias. Para mais notícias e análises sobre investigações policiais, questões de segurança e desdobramentos judiciais no país, continue acompanhando a nossa editoria de Cidades.

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