O empresário Eddie Smith Jr. decidiu doar sua renomada empresa, a Grady-White Boats, uma fabricante de barcos de pesca recreativa, com um valor estimado de US$ 400 milhões, para a caridade. Aos 83 anos, o fundador da empresa, localizada em Greenville, na Carolina do Norte, tomou a decisão de destinar todos os futuros lucros da companhia para causas filantrópicas, renunciando a um potencial ganho bilionário da venda de sua operação. A notícia ressalta um ato de grande altruísmo em um cenário corporativo que muitas vezes prioriza a lucratividade.
Adquirida por Smith em 1968, a Grady-White Boats, inicialmente em dificuldades financeiras, foi transformada em um negócio próspero sob sua gestão, alcançando centenas de milhões de dólares em faturamento anual. Ao longo de cinco décadas, o empresário manteve controle absoluto, recusando investidores externos e a abertura de capital. Esta postura consolidou uma cultura única na empresa, priorizando os colaboradores e a missão sobre os ganhos de curto prazo.
Empresário Doa Companhia de US$ 400 Milhões à Caridade
A iniciativa de Smith vem em um momento de reflexão sobre a filantropia e o propósito corporativo. O executivo, profundamente religioso, expressou sua gratidão e contentamento com sua vida simples na Carolina do Norte. “Deus realmente me abençoou ao me colocar em uma posição de poder doar a grande maioria do meu patrimônio”, afirmou ele em entrevista. Esta atitude de renúncia à vasta riqueza contrasta com a de alguns bilionários que têm se afastado de compromissos filantrópicos globais como o Giving Pledge, ao mesmo tempo em que a ascensão de startups de inteligência artificial tem criado milhares de novos milionários.
Inspiração e Estrutura da Doação
A inspiração para esta medida filantrópica veio de Yvon Chouinard, fundador da marca Patagonia, que em 2022 transferiu suas ações para uma organização sem fins lucrativos, destinando os lucros da empresa para a conservação ambiental. Seguindo um modelo similar, Eddie Smith Jr. estruturou a doação de sua empresa por meio de um “purpose trust”. Ele transferiu as ações com direito a voto da Grady-White, uma porção minoritária, para essa entidade jurídica, que garantirá a independência da empresa e sua operação alinhada aos valores de Smith, incluindo a participação nos lucros e a proibição de sua venda no futuro.
O restante das ações, sem direito a voto, foi repassado para uma nova organização sem fins lucrativos, tipo 501(c)(4). Tanto o “purpose trust” quanto a organização filantrópica serão administrados por conselhos independentes, sem a participação ativa de Smith, que, no entanto, manterá a posição de CEO emérito, com um salário anual. Os funcionários da Grady-White foram informados da decisão na última semana, e o anúncio público está previsto para os próximos dias.
Impacto da Filantropia na Grady-White e Tendências de Governança
A Grady-White destinará dezenas de milhões de dólares em lucros anuais – aqueles que não são reinvestidos nas operações – para a organização sem fins lucrativos. Esses recursos serão então direcionados para causas como a conservação ambiental, a saúde pública e a educação, reforçando o impacto social positivo da empresa. A abordagem de Smith e da Grady-White é uma exceção no cenário corporativo, onde a maioria das empresas busca investidores, é adquirida ou abre capital.
A transferência de propriedade para “purpose trusts” ainda é uma prática rara, com apenas 81 empresas no mundo adotando este modelo. Contudo, esse número tem crescido exponencialmente, passando de sete em 2018 para 15 casos anunciados somente este ano, segundo a Purpose Owned, consultoria que auxiliou a Grady-White na transação. Eric Ries, empreendedor e estudioso de governança corporativa, destaca que “essas transações mostram que um terceiro caminho é possível: uma empresa duradoura construída em torno de uma missão de longo prazo”, oferecendo uma alternativa à venda ou ao controle de investidores.
A Trajetória de Eddie Smith Jr. e Seus Valores
A história de Eddie Smith Jr. é marcada por superação e compromisso com o próximo. Ele reside em uma propriedade de 1.400 hectares, anteriormente pertencente a um general confederado, onde administra a terra para a vida selvagem, protegendo águias-carecas, veados-de-cauda-branca, ursos-negros, perus e corujas. Smith também é proprietário de uma reserva natural adjacente de 1.200 hectares. Sua fundação familiar já acumulou mais de US$ 350 milhões em ativos e fez significativas doações para programas médicos e a Universidade da Carolina do Norte, demonstrando um histórico de filantropia.
Vindo de uma família humilde do interior da Carolina do Norte, onde refeições eram simples e a subsistência um desafio, Smith presenciou o esforço de seu pai, um taxista que prosperou ao criar um negócio de meias femininas por correspondência. Começou a trabalhar aos 10 anos e foi o primeiro de sua família a cursar uma faculdade. A intenção inicial de seguir os passos paternos mudou em 1968, aos 26 anos, quando conheceu Don White, um dos fundadores da Grady-White, à beira da falência. Movido por um “desejo ardente” de provar sua capacidade, Smith decidiu comprar a empresa.
Imagem: infomoney.com.br
O Legado de Sucesso e a Redefinição do Futuro
Contra as recomendações de seu contador e com um empréstimo de seu pai, Smith assumiu a Grady-White, dedicando-se com jornadas de 100 horas semanais por vários anos para salvar o negócio. Em meados dos anos 1970, as vendas decolaram, e a empresa se tornou lucrativa por meio século. Originalmente, Smith planejava que seu filho, Chris, assumisse a direção. No entanto, a morte de Chris há cinco anos, devido à esclerose lateral amiotrófica (ELA), e o falecimento de sua esposa, Jo Allison, com quem foi casado por 57 anos, um ano antes, redefiniram seus planos de sucessão.
“Era o plano de Deus”, declarou Smith, refletindo sobre as perdas. Esses eventos o levaram a repensar o futuro da empresa. Inicialmente, ele chegou a contratar um banco de investimentos e recebeu propostas de venda que se aproximavam de US$ 400 milhões. Contudo, Smith não encontrou nos potenciais compradores a garantia de que a cultura da empresa seria mantida, o que para ele era inegociável. A Grady-White é reconhecida por seus benefícios generosos aos 350 funcionários, que incluem robustas contribuições para planos de aposentadoria, participação nos lucros, programas de educação financeira, atendimento médico no local de trabalho e até um capelão corporativo.
“Esta empresa tem uma alma, e eu não queria perder isso”, afirmou Smith, explicando sua decisão. A preservação desses benefícios foi a motivação primordial para a escolha do “purpose trust”, um modelo que assegura a continuidade dos valores e do impacto positivo. Natalie Reitman-White, fundadora da Purpose Owned, foi contratada para ajudar na constituição do “purpose trust” após Smith tomar conhecimento da história da Patagonia.
Além de abrir mão de qualquer lucro potencial da venda e de benefícios fiscais pela doação das ações, Smith se prepara para arcar com uma conta tributária de milhões de dólares para estruturar o trust. “Não estou obtendo nenhum benefício, fiscal ou de qualquer outro tipo”, declarou, reiterando o caráter puramente altruísta de sua ação e a doação da maior parte de seu patrimônio para a caridade.
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A surpreendente doação de sua empresa, a Grady-White Boats, por Eddie Smith Jr. ressalta um compromisso extraordinário com a filantropia e o bem-estar social, provando que é possível conciliar o sucesso empresarial com a responsabilidade social. Essa iniciativa oferece um modelo inspirador de como negócios bem-sucedidos podem ser usados como plataformas para o impacto positivo a longo prazo. Para continuar acompanhando as últimas notícias sobre economia e transformações no cenário corporativo, visite nossa editoria de Economia em Rarosolutions.
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