A parceria de Lulinha com lobista Roberta Luchsinger em negociações de contratos governamentais foi exposta em detalhe por mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF). Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha e filho do atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, mantinha uma colaboração com a lobista, que estava à frente de diversas tratativas para selar acordos com a esfera federal. As comunicações, primeiramente reveladas pela revista Veja, integram um inquérito em curso que investiga potenciais casos de tráfico de influência. O teor desses diálogos foi subsequently confirmado por O GLOBO.
Um dos pontos destacados nas interceptações demonstra o incentivo de Fábio Luís à lobista antes de um encontro crucial com representantes do governo. Naquela ocasião específica, o grupo almejava acesso facilitado ao Ministério da Saúde. Marco Aurélio Santana Ribeiro, o “Marcola”, que era chefe de gabinete de Lula, foi o responsável por agendar uma reunião entre Roberta Luchsinger e Swedenberger Barbosa, então ocupante do cargo de secretário-executivo da pasta. “Pousei. Vou lá no Berge”, comunicou Roberta a Fábio em 6 de março de 2024. Em resposta, Lulinha ironizou com bom humor: “Que ótimo. Vai com tudo. Manda bjo (beijo) pro Berge e fala que não fui pq vc não chamou”.
Parceria Lulinha e lobista exposta em negociações
Em relatório ao qual a revista Veja teve acesso, a Polícia Federal expressa sua convicção sobre a existência de uma sociedade secreta envolvendo Roberta Luchsinger, Fábio Luís Lula da Silva e Fernando Bittar, com o intuito de intermediar transações comerciais. Segundo a investigação, “os elementos probatórios obtidos no curso da investigação revelam a existência de um núcleo de atuação permanente e coordenada composto por Roberta Moreira Luchsinger, Fabio Luis Lula da Silva e Fernando Bittar, voltado à interlocução de interesses privados perante agentes e órgãos da Administração Pública Federal”, concluíram os delegados responsáveis pelo caso, conforme divulgado. Fernando Bittar é um amigo de longa data e antigo sócio de Lulinha, cujo nome se tornou conhecido durante a Operação Lava-Jato em razão de ser um dos proprietários do sítio em Atibaia, propriedade que, para a força-tarefa de Curitiba, pertenceria de fato a Lula.
A intensa proximidade entre o trio também é evidenciada, conforme a Polícia Federal, pela criação de um grupo de WhatsApp, denominado “Musaranhos”. Este grupo era utilizado para coordenar e discutir negócios com o governo. Musaranhos são pequenos mamíferos semelhantes a ratos. Nesse contexto, Lulinha e Bittar eram referidos como “Musos”, enquanto Roberta era a “Musa”, reforçando a dinâmica e a intimidade do núcleo de atuação.
O papel decisório de Fábio Luís e a amplitude das negociações
A análise do material investigativo aponta que Fábio Luís Lula da Silva, mesmo mantendo uma postura de menor visibilidade nas negociações diretas, aparece reiteradamente como uma figura de significativa relevância. “As comunicações indicam que Fabio é mencionado por Roberta Luchsinger como referência decisória nos projetos discutidos”, detalha o relatório policial, sugerindo sua influência e participação nas definições estratégicas dos negócios em pauta.
Em suas mensagens, a lobista Roberta Luchsinger frequentemente se gabava de uma suposta forte conexão com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em um dos trechos interceptados, Roberta afirma que o próprio Lula teria oferecido a ela um cargo no governo, mas que ela optou por não aceitar. “Fui das poucas pessoas q o Lula chamou e perguntou: escolhe onde vc quer ficar. (…)”, relatou Roberta, segundo as mensagens sob análise.
Conforme noticiado por O GLOBO, a Polícia Federal concentra suas investigações na amplitude dos negócios que Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, conduzia em Brasília. As mensagens apreendidas em seu telefone celular revelam menções a diversas empresas. Entre elas, destacam-se negócios nos segmentos de gerenciamento de empréstimos consignados, cibersegurança e, ainda, a venda de medicamentos à base de cannabis medicinal. É relevante frisar que as duas primeiras áreas, empréstimos consignados e cibersegurança, já mantêm contratos ativos com o governo federal.
Luchsinger era procurada pelas empresas devido à sua extensa rede de contatos, que incluía membros do Partido dos Trabalhadores (PT) e assessores ocupando posições estratégicas no governo, como Marco Aurélio Santana Ribeiro, o “Marcola”, ex-chefe de gabinete do presidente. Em uma revelação feita por O GLOBO, a empresária chegou a encaminhar a ele a minuta de um contrato que visava à venda de medicamentos derivados de canabidiol para o Ministério da Saúde, buscando uma negociação com dispensa de licitação. Naquele período, as tratativas para este negócio específico não progrediram nem foram concretizadas.
RL Consultoria e o elo com Antonio Carlos Antunes
Para atuar na intermediação dessas complexas negociações, Roberta Luchsinger utilizava a RL Consultoria e Intermediações. A empresa, conforme dados da Junta Comercial de São Paulo (Jucesp), está registrada para a atividade de “intermediação e agenciamento de serviços e negócios em geral”, com um capital social declarado de R$ 99.800. O endereço de sede informado para a consultoria é o apartamento em Higienópolis, um bairro nobre de São Paulo, onde a lobista reside. Foi nesse local que a PF executou mandados de busca e apreensão no fim do ano passado, durante a “Operação Sem Desconto”, que investiga supostas fraudes envolvendo o INSS.
Imagem: infomoney.com.br
A consultoria foi fundada por Luchsinger em 2019, depois que ela tentou, sem sucesso, uma carreira política, candidatando-se a deputada estadual pelo PT no ano anterior. Proveniente de uma família herdeira de um banqueiro suíço e com proximidade a integrantes do partido em São Paulo, ela havia sido casada com o ex-delegado da Polícia Federal e ex-deputado federal Protógenes Queiroz, de quem se separou alguns anos antes de ingressar na política. Já em 2022, enquanto atuava no ramo de consultorias, chegou a contratar um publicitário para sua pré-campanha a deputada federal, mas desistiu da concorrência antes de efetivar seu registro no Tribunal Superior Eleitoral.
Entre a lista de clientes da RL Consultoria identificados pela Polícia Federal, figura a World Cannabis, de propriedade do empresário Antonio Carlos Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, figura central em um escândalo de desvio ilegal de aposentadorias. A investigação aponta que Luchsinger recebeu um total de R$ 1,5 milhão do empresário, em cinco parcelas de R$ 300 mil cada, como suposta compensação por auxiliá-lo a concretizar negócios com o governo. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao autorizar a operação que mirou Luchsinger no fim do ano passado, descreveu que “no caso específico de Roberta, há farta documentação nos autos demonstrando que ela se utiliza de empresas de fachada para receber recursos oriundos de empresa do grupo de Antônio Camilo sem qualquer documentação capaz de atestar os serviços supostamente prestados”. Os projetos a serem executados pela RL Consultoria, como “Projeto Energia”, “Projeto Esmagadoras” e “Projeto Hidrogênio”, eram completamente dissociados das atividades da Brasília Consultoria Empresarial LTDA, a empresa de Antônio Camilo que supostamente contratou os serviços. À Polícia Federal, a empresária alegou que os pagamentos de Antunes correspondiam a serviços legítimos de consultoria, enquanto Antunes, atuante no ramo farmacêutico, tentava ingressar no mercado de medicamentos à base de cannabis, buscando viabilizar a venda desses produtos ao Ministério da Saúde, o que, no entanto, não prosperou.
A PF também localizou no aparelho celular de Luchsinger uma minuta de contrato da RL Consultoria com a Safe Consig Tecnologia da Informação. Esta empresa é provedora de tecnologia para gestão de empréstimos consignados e detém contratos com diversas entidades públicas, como Correios, Caixa Econômica Federal, BRB e vários municípios, os quais, por sua vez, negam qualquer irregularidade em suas parcerias. O documento em questão surge anexado a uma mensagem datada de 13 de maio de 2024. Nela, Luchsinger afirma ter recebido uma versão revisada do documento de um indivíduo identificado como Saulo, mesmo nome de Saulo de Tasso Alves Caracas Dino, que é sócio da Safe Consig. “Saulo me mandou revisado agora. Vou assinar, tá?”, escreveu a empresária a um de seus interlocutores. Para saber mais sobre investigações federais, você pode consultar informações da Polícia Federal.
Um dos focos de atuação prioritária da empresária era direcionado ao Ministério da Saúde. Um plano de negócios detalhado, obtido por O GLOBO, expõe o interesse dela e de Antunes em suprir o governo federal com 1,2 milhão de frascos de 36 tipos variados de medicamentos, utilizando um esquema de dispensa de licitação. O objetivo traçado era alcançar um faturamento expressivo de R$ 636 milhões, conforme depoimento de uma testemunha à Polícia Federal.
Os documentos recuperados nos celulares de Luchsinger e Antunes eram variações de um termo de referência, que funciona como um manual técnico utilizado para orientar o planejamento de contratações pelo governo. Uma das suspeitas dos investigadores é que a intenção por trás desses documentos era entregá-los prontos para que o Ministério da Saúde os publicasse, agilizando o processo. Um áudio, igualmente revelado por O GLOBO, flagra Luchsinger e Antunes debatendo abertamente a viabilidade de implementar o negócio junto ao Ministério da Saúde por meio da dispensa de licitação. “É contratação, sim. Ele sabe que é dispensa. É a nova lei das licitações, não sei se você já deu uma lida. Devido ao cenário de emergência, podemos criar um documento bem robusto pedindo a dispensa de licitação”, argumentou a empresária ao lobista. Além disso, mensagens interceptadas pela investigação revelam Antunes tratando com interlocutores sobre a negociação do contrato. Em uma conversa de fevereiro de 2025, o lobista solicita à sua equipe um “modelo que foi efetivado no MS”, referindo-se ao Ministério da Saúde. Em outro diálogo, do mês anterior, ele comenta sobre reuniões futuras com técnicos da pasta, que, segundo ele, teriam a prerrogativa de “acatar a execução do projeto”. O inquérito aponta ainda que Antunes realizou viagens aos Estados Unidos e à Colômbia com o objetivo de buscar fornecedores de canabidiol.
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Em suma, as evidências obtidas pela Polícia Federal delineiam um cenário de intensa colaboração entre Fábio Luís Lula da Silva e Roberta Luchsinger em negociações com o governo, com um sistema organizado para intermediar negócios e acessar setores chave como o Ministério da Saúde. Os fatos expostos reforçam a importância de uma análise rigorosa e continuada por parte das autoridades competentes sobre o trânsito de influência em esferas governamentais. Continue explorando mais notícias e análises sobre os desdobramentos desta e outras investigações em nossa editoria de Política.
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