A iminente transformação do mercado de trabalho com IA tem sido o foco de diversos debates no cenário tecnológico e econômico. Mustafa Suleyman, o CEO da Microsoft AI, lançou um alerta sobre as drásticas alterações que aguardam os profissionais em um futuro próximo, prevendo que a inteligência artificial revolucionará as ocupações de ‘colarinho branco’ nos próximos 18 meses.
Antigamente, no que o fundador da Fortune, Henry Luce, chamou de “Século Americano”, um MBA ou uma pós-graduação em Direito representava, muitas vezes, um caminho garantido para excelentes oportunidades profissionais e o cumprimento do Sonho Americano. No entanto, o século 21 impõe uma nova questão: o que acontece quando a automação alcança esses postos de trabalho que tradicionalmente exigiam qualificação elevada?
Microsoft Alerta: IA Transforma o Mercado de Trabalho em 18 Meses
Em uma entrevista recente ao Financial Times, Suleyman fez eco às previsões de outros expoentes do setor, alertando que em aproximadamente um ano e meio, indivíduos formados em Direito, em MBAs e muitos outros profissionais com menos credenciais formais podem enfrentar um cenário onde sua atuação será consideravelmente reduzida. As projeções indicam que a IA atingirá um “desempenho em nível humano” na maioria, se não em todas, as tarefas profissionais. O executivo especificou que a vasta maioria das atividades que requerem interação com computadores, como contabilidade, advocacia, marketing e até a gestão de projetos, estão suscetíveis à total automação dentro do mesmo período de 18 meses.
Esta perspectiva ecoa um ensaio de autoria do pesquisador Matt Shumer, publicado na Fortune, que obteve grande repercussão na última semana. Shumer comparou a situação atual com o período anterior à eclosão da pandemia de Covid-19 nos Estados Unidos, em fevereiro de 2020, mas com um potencial de impacto ainda mais severo e disruptivo na economia global e na força de trabalho. O crescimento exponencial da capacidade de computação é, para Suleyman, um indicador inequívoco de que a IA está preparada para substituir um grande volume de profissionais, até mesmo superando desenvolvedores humanos na programação.
A preocupação com a obsolescência profissional é um sentimento partilhado por outros pesos-pesados da tecnologia. Shumer e o CEO da OpenAI, Sam Altman, expressaram publicamente sua apreensão, chegando a manifestar tristeza diante da possibilidade de que o trabalho de uma vida inteira seja rapidamente comprometido pela ascensão da IA. Tal discurso não é novidade, lembrando as declarações alarmistas proferidas por CEOs no início de 2025.
Naquele ano, Dario Amodei, CEO da Anthropic, prognosticou que a inteligência artificial poderia eliminar metade dos cargos administrativos de nível inicial. Similarmente, Jim Farley, CEO da Ford, estimou que a tecnologia resultaria na diminuição pela metade do número de posições administrativas nos EUA. Em uma matéria veiculada na revista The Atlantic, o jornalista Josh Tyrangiel questionou a prontidão do país para a iminente perturbação no mercado de trabalho causada pela IA, comparando a quietude dos executivos ao avistamento da barbatana de um tubarão prestes a emergir.
O alerta ganhou uma nova dimensão após Elon Musk, CEO da SpaceX, declarar em Davos, no mês anterior, sua convicção de que a chamada inteligência artificial geral (AGI) – um sistema capaz de igualar ou superar a inteligência humana – poderia emergir já neste ano. No entanto, enquanto especialistas ponderam sobre o quando e o se a IA de fato abalará o setor de ‘colarinho branco’, os impactos concretos no emprego têm sido, até o momento, limitados.
Um levantamento da Thomson Reuters, divulgado em 2025, revelou que advogados, contadores e auditores têm explorado a tecnologia em tarefas específicas, como a revisão de documentos e análises rotineiras. Os ganhos de produtividade observados, embora existentes, são considerados modestos, muito distantes de um cenário de demissões em massa. Em alguns cenários, a utilização da IA teve um efeito inverso ao prometido: uma diminuição da produtividade.
Imagem: infomoney.com.br
Um estudo recente do Model Evaluation and Threat Research, um instituto independente, investigou a influência da IA no desempenho de desenvolvedores de software, concluindo que o emprego da tecnologia levou a um aumento médio de 20% no tempo de conclusão das tarefas. Os benefícios econômicos mais tangíveis da IA permanecem majoritariamente restritos ao próprio setor de tecnologia, sugerindo que a disruptura em larga escala na economia real ainda está em seus estágios iniciais. Torsten Slok, economista-chefe da Apollo Global Management, apontou em estudo recente que as margens de lucro das gigantes de tecnologia cresceram mais de 20% no quarto trimestre de 2025, em contraste com a estagnação do índice Bloomberg 500.
Dias antes, Slok já havia notado que, segundo as projeções de Wall Street para o S&P 500, os investidores não parecem convencidos de que a IA trará lucros significativos para além do segmento tecnológico. Apesar disso, alguns indícios iniciais de substituição de mão de obra já começam a surgir. Em 2025, a consultoria Challenger, Gray and Christmas registrou que cerca de 55 mil demissões foram associadas, de alguma forma, à inteligência artificial. A própria Microsoft, por exemplo, eliminou 15 mil postos de trabalho no ano passado, embora sem citar explicitamente a IA como a principal razão.
Após esses cortes, em comunicado de julho, o CEO Satya Nadella afirmou que a empresa precisava “reimaginar nossa missão para uma nova era”. Em que pese as reduções no número de empregos serem relativamente pequenas até agora, o mercado financeiro demonstra uma reação vigorosa ao potencial da tecnologia. Na semana passada, ações de empresas de software sofreram uma intensa onda de vendas, impulsionada pelo temor de automação, episódio que foi denominado pelos analistas como “SaaSpocalypse” – uma alusão ao setor de software como serviço (SaaS). Essa correção ocorreu após a Anthropic e a OpenAI anunciarem a implementação de sistemas de IA para empresas, com capacidade de executar diversas funções que atualmente são desempenhadas por companhias de SaaS.
Mustafa Suleyman expressa grande entusiasmo em relação às possibilidades da inteligência artificial. Ele visualiza um futuro onde as organizações poderão customizar sistemas de IA para virtualmente qualquer função, impulsionando a produtividade em todos os setores da economia de serviços. Segundo ele, o processo de desenvolver um novo modelo de IA será tão simples quanto criar um podcast ou escrever um blog, permitindo a concepção de IAs sob medida para cada instituição, organização e pessoa do planeta. Suleyman declara que seu objetivo principal à frente da Microsoft AI é alcançar a superinteligência, focando em tornar a empresa mais autossuficiente em IA, diminuindo a dependência da OpenAI e priorizando o desenvolvimento de modelos próprios, considerados cruciais para a estratégia da companhia. “Esta é, afinal, a tecnologia mais importante do nosso tempo”, reiterou Suleyman. “Precisamos desenvolver nossos próprios modelos de base, na fronteira absoluta do que é possível.”
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Este cenário de transformação profunda reitera a necessidade de adaptabilidade e aprendizado contínuo. As projeções sobre o impacto da IA no futuro do trabalho demandam que profissionais e empresas monitorem atentamente as inovações. Para aprofundar-se em análises sobre tecnologia e economia que moldam nosso mundo, explore nossa editoria de Economia. Contato: Fale com Nossas Equipes
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