O sumiço de Evo Morales, ex-presidente da Bolívia, intriga o cenário político e a população há aproximadamente um mês. Conhecido por sua intensa atividade política, mesmo enquanto enfrentava um mandado de prisão por tráfico humano, Morales esteve ausente da vida pública, cessando sua participação em eventos, entrevistas e até mesmo seu programa de rádio dominical.
A mudança abrupta em seu perfil público coincide com eventos de grande repercussão internacional: os recentes ataques dos Estados Unidos à Venezuela e a subsequente prisão de Nicolás Maduro. Anteriormente, Morales havia vivido o que alguns descreveram como um “exílio a céu aberto” por mais de um ano, período em que permaneceu ativo, inclusive votando nas eleições presidenciais de 2025, um detalhe que ressaltava sua persistente influência.
Sumiço de Evo Morales: ex-presidente da Bolívia desaparecido
Logo após as ações norte-americanas, Evo Morales havia feito críticas contundentes, caracterizando-as como uma “agressão imperial brutal”. Essas declarações foram divulgadas tanto em suas redes sociais quanto durante a transmissão de seu programa de rádio. Esta emissão, que tradicionalmente partia do Chapare – uma região notória pela produção de coca e considerada a principal base de apoio político do ex-presidente –, tem sido notada por sua ausência desde então.
Desde sua condenação pública dos ataques, Evo Morales não foi mais visto em atividades públicas. O ex-presidente deixou de comparecer a quatro edições consecutivas de seu programa de rádio, além de não marcar presença nos habituais comícios e reuniões que costumeiramente liderava. Este inexplicável desaparecimento tem alimentado uma série de conjecturas, incluindo a possibilidade de que Morales possa ter saído do país, uma hipótese levantada por um deputado de orientação conservadora.
A repentina ausência do ex-líder boliviano ocorre em um período de significativa reorientação na política interna do país. O presidente atual, Rodrigo Paz Pereira, está empenhado em reatar laços e promover uma aproximação estratégica com os Estados Unidos. O objetivo principal é garantir o acesso a assistência econômica em um momento em que a Bolívia enfrenta desafios econômicos prementes, como a escassez de dólares e a vulnerabilidade de suas contas públicas.
Um dos pilares da gestão de Rodrigo Paz Pereira é a restauração da parceria com os Estados Unidos, o que inclui a autorização para o retorno da Agência de Combate às Drogas (DEA) ao território boliviano. A DEA havia sido expulsa da Bolívia em 2008, durante o governo de Evo Morales. A decisão de expulsão foi motivada por operações policiais que resultaram em confrontos violentos no Chapare e na morte de diversos produtores de coca.
É importante destacar que, na Bolívia, o cultivo da folha de coca possui uma dupla conotação. Historicamente, a folha é empregada em usos tradicionais e medicinais, sendo valorizada como um estimulante natural, um auxiliar digestivo e um tratamento eficaz para o mal de altitude. No entanto, é amplamente conhecido que uma porção significativa da produção proveniente da região do Chapare é desviada para a fabricação de cocaína, mantendo a área sob constante observação por organismos internacionais.
Diante do cenário, aliados e organizações sindicais ligadas a Morales prontamente vieram a público para contestar as especulações de fuga, assegurando que o ex-presidente não deixou o país. Eles atribuem o afastamento à saúde de Morales, afirmando que ele estaria enfrentando problemas. Na primeira edição do programa de rádio que Morales não apresentou, o condutor da atração explicou aos ouvintes que o ex-presidente havia contraído dengue, uma enfermidade sazonal e comum em várias nações da América Latina.
Imagem: infomoney.com.br
Leonardo Loza, ex-senador e uma figura proeminente entre os apoiadores de Evo Morales, recusou-se a detalhar o paradeiro exato do ex-líder. Ao ser questionado sobre a localização de Morales, Loza limitou-se a afirmar que ele estaria “em algum cantinho da nossa Pátria Grande”, expressão utilizada com frequência para designar coletivamente os países da América Hispânica, ressaltando o caráter simbólico da ausência e a abrangência de sua representatividade.
Em um desdobramento que realça a mística em torno da figura do ex-presidente, simpatizantes de Morales transformaram seu sumiço de Evo Morales em um manifesto político. Ações como o uso de máscaras estampadas com o rosto do ex-mandatário se tornaram comuns, e um coletivo chegou a lançar uma canção intitulada “Onde está Evo?”. A música evoca algumas das conquistas do líder durante sua administração e culmina com a mensagem de que ele “está com o povo”, reforçando a ideia de que, mesmo ausente fisicamente, seu espírito e legado permanecem conectados à população boliviana.
As teorias e o debate sobre o paradeiro de Evo Morales ganharam intensidade no final de janeiro, quando o deputado conservador Edgar Zegarra Bernal afirmou publicamente que o ex-presidente estaria residindo no México. Essa alegação, no entanto, veio desacompanhada de quaisquer provas ou pormenores que pudessem validar sua sustentação. A menção ao México ecoa um episódio de 2019, quando Morales efetivamente buscou refúgio no país, após ser acusado de fraude eleitoral, transferindo-se posteriormente para a Argentina. O deputado, em vez de apresentar evidências, optou por questionar abertamente a postura do governo, inquirindo: “Por que o mandado de prisão contra Evo Morales não foi cumprido até agora?”.
É pertinente recordar que Evo Morales vivia de forma reclusa em um pequeno vilarejo, imerso na selva boliviana, desde outubro de 2024. Neste local, centenas de produtores de coca garantiam sua proteção, impedindo que as autoridades policiais pudessem executar um mandado de prisão expedido contra ele. A acusação que pesava sobre o ex-presidente era a de ter mantido um relacionamento amoroso com uma adolescente de 15 anos no ano de 2016, enquanto ainda ocupava o mais alto cargo do país.
Evo Morales consistentemente nega veementemente as acusações que o envolvem. Ele sustenta que é vítima de uma perseguição política, que seria articulada por seu ex-aliado e sucessor, Luis Arce. A relação entre Morales e Arce sofreu uma ruptura significativa após o retorno de Evo à Bolívia em 2020. Enquanto isso, o cenário político boliviano viu Luis Arce enfrentar a mais severa crise econômica em quatro décadas de história do país. Com uma popularidade em declínio, Arce acabou abandonando a pretensão de disputar a reeleição. Seu sucessor, Rodrigo Paz Pereira, embora não tenha tomado medidas diretas contra Morales, determinou a prisão de Arce, sob a acusação de permitir o enriquecimento ilícito durante seu período como ministro das Finanças na administração anterior, culminando em mais um capítulo da instável política boliviana.
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O paradeiro de Evo Morales continua sendo um ponto de interrogação que paira sobre a política boliviana. Enquanto as teorias se multiplicam, a população acompanha os desdobramentos de uma narrativa que une saúde, perseguição política e uma conturbada relação de poder. Para aprofundar-se em outras notícias sobre o cenário político da América Latina, convidamos você a explorar mais em nossa editoria de Política.
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