Falência Hídrica: ONU redefine estado global da água

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Falência hídrica agora emerge como a nova e precisa descrição para o estado atual dos recursos aquáticos em escala global. Essa classificação alarmante provém de um relatório recente elaborado pela Universidade das Nações Unidas (UNU), uma proeminente instituição de pesquisa vinculada à agência internacional. Após décadas em que as comunidades humanas consumiram água em uma proporção superior à capacidade de compensação do clima e da hidrologia, uma parcela significativa do que era considerado o capital hídrico do planeta encontra-se irreversivelmente danificada, para além de qualquer perspectiva realista de recuperação.

Concomitantemente à super exploração, fatores como a crescente poluição, a salinização de mananciais e outras modalidades de deterioração da qualidade das águas reduziram drasticamente a disponibilidade de volumes seguros para consumo. A realidade é que quase três quartos da população mundial residem atualmente em nações classificadas como de insegurança hídrica ou em situação crítica de insegurança hídrica. Estima-se que 2,2 bilhões de indivíduos permanecem sem acesso a água potável gerida de forma segura, enquanto 3,5 bilhões não dispõem de saneamento básico adequadamente gerenciado. Adicionalmente, aproximadamente 4 bilhões de pessoas enfrentam a escassez severa de água por um período mínimo de um mês anualmente.

O Dr. Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da UNU e um dos signatários do relatório, ressalta que a tradicional linguagem de “crise”, que usualmente sugere uma emergência temporária seguida por um retorno à normalidade através de medidas de mitigação, já não consegue representar com exatidão a dimensão do que está ocorrendo em diversas regiões do globo. Diante desse cenário preocupante, é fundamental compreender a essência do conceito proposto pela entidade:

Falência Hídrica: ONU redefine estado global da água

A escolha por um termo advindo das finanças serve para ilustrar o estágio atual dos recursos hídricos.

A analogia com a falência financeira é esclarecedora: um agente não é declarado falido por enfrentar uma dificuldade momentânea de fluxo de caixa, mas sim por ter despendido recursos muito além de suas posses por um período prolongado, acumulando dívidas de tal magnitude que a capacidade de honrar suas obrigações é completamente comprometida, exigindo, em essência, um “reinício” de seu balanço patrimonial. Essa visão busca equiparar o consumo e gestão dos recursos hídricos à gestão de ativos e passivos econômicos. As três ideias centrais que sustentam essa analogia serão detalhadas a seguir.

Aplicações Financeiras para Entender a Crise Hídrica Global

Primeiramente, a água deve ser percebida como uma forma vital de capital natural, e não apenas como um fluxo de recursos contínuo. Os pesquisadores que compõem o estudo argumentam que as interações entre a humanidade e os sistemas hídricos exibem um comportamento similar ao mundo das finanças, com elementos que se assemelham a receitas anuais e a estratégias de poupança. Os recursos hídricos que possuem capacidade de renovação – como rios, reservatórios superficiais e até mesmo a neve – podem ser comparados a uma “conta corrente” hídrica. Por outro lado, os estoques não renováveis de água – exemplificados por geleiras ancestrais e aquíferos subterrâneos – assemelham-se a uma “poupança” natural. Este capital, tal como o patrimônio de um indivíduo que não consegue preservá-lo, sofre uma severa degradação, tanto pela exploração descontrolada de seus recursos quanto pela contaminação e poluição.

Um segundo ponto que reforça a adequação da analogia financeira reside no fato de que as reivindicações sobre o capital hídrico se manifestam por meio de direitos e expectativas. Isso abrange desde os direitos legais sobre o uso da água, formalmente estabelecidos, até expectativas informais de acesso e regras complexas de alocação de recursos. Diversos fatores contemporâneos, como a contínua expansão da agricultura irrigada para suprir demandas alimentares crescentes, o acelerado processo de urbanização global e o aumento exponencial do consumo pela indústria em diversas cadeias produtivas, contribuem para um significativo incremento nas reivindicações sobre essas expectativas já fragilizadas. Para saber mais sobre o panorama hídrico mundial, consulte o portal oficial da UN-Water, que compila informações e iniciativas da Organização das Nações Unidas.

Por fim, uma constatação de grande simplicidade, mas de profunda relevância, é que o sistema hídrico global tem a capacidade alarmante de acumular dívidas. No instante em que as retiradas de água e as expectativas de uso, tanto das “contas correntes” renováveis quanto das “poupanças” de estoque, extrapolam de forma recorrente e sistemática as entradas naturais ou as capacidades de reposição, um estado de déficit hídrico permanente é estabelecido. A partir dessa perspectiva crítica, a ideia de falência hídrica transcende a gravidade pontual de uma única estiagem prolongada ou o nível de estresse hídrico observado em um ano específico. Ela diz respeito, em sua essência, ao balanço geral de todo o sistema interligado entre seres humanos e água: seus vastos estoques e fluxos dinâmicos, suas incessantes demandas e complexas obrigações, e, crucialmente, sua habilidade intrínseca de honrar essas obrigações sem, no processo, liquidar irremediavelmente o capital natural do qual o próprio futuro de todas as formas de vida depende.

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Em suma, o conceito de “falência hídrica” proposto pela UNU nos convida a uma reflexão profunda sobre a gestão dos nossos bens naturais mais preciosos. Ele não apenas redefine a severidade do problema global da água, mas também sublinha a urgência de uma mudança paradigmática na forma como abordamos sua exploração e preservação, enfatizando a necessidade de uma restauração de balanço em vez de meras correções temporárias. Fique atento às nossas publicações sobre questões globais e desenvolvimentos ambientais. Para aprofundar a análise sobre a interface entre política, economia e meio ambiente, recomendamos a leitura de nossos artigos em Análises, onde exploramos as raízes e as consequências de desafios complexos como a escassez hídrica.

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Crédito da imagem: Reuters

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