Cenário 2026: Economia da China e seu Impacto no Brasil

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Enquanto parte do ocidente se diverte em festividades de verão, o país asiático celebrou, na última terça-feira (17), o Ano do Cavalo de Fogo. A atenção de especialistas globais está voltada para a **economia da China**, a segunda maior do planeta, em busca de respostas sobre a sustentabilidade de sua atividade. De acordo com analistas entrevistados pelo InfoMoney, as estratégias agressivas de estímulo conseguiram prevenir uma crise profunda no mercado imobiliário. Contudo, o persistente problema de baixa demanda interna deve resultar na contínua exportação de deflação para outras nações, apresentando obstáculos significativos para o Brasil.

Embora a China tenha alcançado um crescimento de 5% no ano anterior, em linha com as expectativas do governo, um desafio maior se impõe: a desarmonia entre oferta e demanda. Em janeiro, o índice de preços na saída das fábricas registrou uma queda pelo quadragésimo mês consecutivo, evidenciando uma produção industrial excedente. Concomitantemente, o índice de preços ao consumidor (inflação para o público geral) teve um incremento modesto de 0,2% em janeiro na comparação anual. Este dado, em conjunto com o crescimento mais lento das vendas no varejo desde a crise da Covid-19 em 2020, sinaliza a debilidade da demanda dos consumidores chineses.

Cenário 2026: Economia da China e seu Impacto no Brasil

Para mitigar a dependência excessiva de exportações, o governo chinês tem implementado uma série de políticas para fortalecer o consumo doméstico. A avaliação geral é de que a nação foi eficaz em evitar um colapso sistêmico, mas a resolução do desequilíbrio estrutural entre oferta e demanda ainda está distante. Lucas Sigu Souza, sócio-fundador da Ciano Investimentos, comenta que os programas estatais reduziram substancialmente o risco de uma implosão no segmento imobiliário, que enfrenta a reticência dos consumidores em adquirir novas propriedades.

Souza observa que a China possui um plano bem definido para orientar suas empresas a alinhar-se com a estratégia nacional. “Os estímulos contiveram a estagnação do setor imobiliário e evitaram o efeito dominó de falências empresariais, o que proporciona uma previsibilidade crucial para o mercado global”, afirma o especialista. No entanto, estabilização não equivale a uma vigorosa retomada. Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, aponta que a locomotiva do crescimento chinês opera em ritmo lento. “O paradigma de crescimento impulsionado pela expansão imobiliária está se esgotando. Há estabilidade marginal, mas não interpretamos isso como um retorno cíclico de fôlego”, explica Costa.

João Pedro Moreno, analista da Nexgen Capital, reforça essa percepção mais cética com números relevantes: o investimento imobiliário sofreu uma redução de 17,2%, e aproximadamente 80 milhões de imóveis sem compradores continuam a pressionar o mercado. Moreno destaca que a prioridade do governo permanece na manufatura e na inovação tecnológica, sem um plano de resgate substancial para o segmento da construção civil. Relatório do The New York Times salienta que as vendas de novas unidades habitacionais atingiram o ponto mais baixo em mais de 15 anos, e os valores de apartamentos usados despencaram.

Com a depreciação do valor de suas propriedades, milhões de famílias diminuíram seus gastos. Essa situação gera dificuldades financeiras para os governos locais, que dependem fortemente da arrecadação ligada ao setor imobiliário para quitar seus compromissos, incluindo o pagamento de funcionários públicos. Dado que o consumo interno das famílias chinesas ainda permanece fraco — cerca de 20 pontos percentuais abaixo da média global — e o investimento baseado em endividamento está aproximadamente 20 pontos acima, a saída encontrada pela indústria chinesa tem sido escoar a produção excedente no mercado internacional.

“A China persiste em exportar deflação ao direcionar sua vasta produção para os mercados mundiais, o que naturalmente exerce uma pressão baixista sobre os preços globais”, elucida Moreno. Este cenário acarreta um efeito dual para o Brasil, como detalhado por Marianna Costa. Para a indústria brasileira, o impacto é multifacetado: setores como siderurgia e metalurgia poderão enfrentar uma concorrência intensificada. Por outro lado, a importação de insumos a preços mais vantajosos pode exercer um efeito desinflacionário sobre bens transacionáveis no mercado interno brasileiro.

No que concerne às grandes companhias brasileiras de commodities, o contexto de 2026 exige prudência e estratégias bem delineadas. No setor de mineração, a demanda comedida do mercado imobiliário e da construção civil chinês deve manter os preços sob pressão. “A estagnação do mercado imobiliário limita a necessidade de aço e minério de ferro, o que exerce uma pressão de queda sobre os preços dessas commodities”, corrobora Moreno. Contudo, Souza adota uma perspectiva mais otimista, motivada pela transição energética.

“Se a construção civil não expande, os segmentos de carros elétricos e infraestrutura tecnológica, por outro lado, crescem e demandarão minério e aço da mesma forma”, pontua Souza. Para ele, a receita da Vale (VALE3) não deve experimentar um salto expressivo oriundo da China. Da mesma forma, a nação asiática não será o fator determinante para uma queda acentuada na receita, desde que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) se mantenha, já que a demanda migra para outros setores em vez de desaparecer. A dinâmica no agronegócio tende a se tornar mais desafiadora.

Apesar da demanda por alimentos ser tradicionalmente resiliente, a China deverá fazer uso de seu poder de monopsônio (ou seja, de comprador dominante) para negociar condições de preço mais duras ao longo de 2026. Lucas Sigu Souza emite um alerta específico para as grandes companhias frigoríficas brasileiras JBS (JBSS3), Marfrig (MBRF3) e Minerva (BEEF3). “A China realiza vultosos investimentos na criação de frangos e suínos para diminuir sua dependência de importações. Caso sua produção interna aumente, o valor da carne bovina importada sentirá uma forte pressão competitiva”, conclui Souza.

Para o investidor brasileiro que considera aplicar capital na Ásia por meio de ETFs ou BDRs, a recomendação unânime é de extrema seletividade. Embora as avaliações de empresas chinesas com desconto possam parecer convidativas, elas frequentemente camuflam riscos estruturais complexos. “A maior apreensão reside no panorama geopolítico sem clareza, especialmente com a iminência de novas taxas comerciais”, destaca Souza, que sugere um enfoque em tecnologia e setor financeiro, e uma evasão total ao mercado imobiliário. João Pedro Moreno concorda que os ativos apresentam um desconto, mas alerta para a possibilidade de uma ‘armadilha de valor’ (value trap) caso a transição chinesa para uma economia impulsionada pelo consumo se estenda além das expectativas. A volatilidade é projetada para permanecer elevada, exigindo cautela e uma visão de longo prazo dos investidores.

Acompanhar a evolução da economia chinesa é fundamental, dada sua influência nos mercados globais. Os desdobramentos em seu setor imobiliário, as estratégias para estimular a demanda interna e o impacto das exportações deflacionárias continuarão a moldar o panorama econômico global e as relações comerciais, principalmente com o Brasil, um parceiro estratégico. A atenção deve ser constante para antecipar os cenários de 2026 e os possíveis desafios para setores chave brasileiros, como observado pelas tendências mundiais no portal do Valor Econômico.

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Crédito da imagem: Divulgação

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