Deputados governistas brasileiros realizaram uma viagem oficial aos Estados Unidos com o objetivo central de angariar suporte para contrapor a influência política exercida pela família Bolsonaro junto à Casa Branca e solicitar auxílio da oposição ao governo do então presidente Donald Trump na reversão de medidas tarifárias impostas ao Brasil. Esta missão diplomática ocorreu aproximadamente dez dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é apontado como pré-candidato à Presidência da República, ter tido um encontro com Donald Trump em Washington. A reunião antecedeu o comunicado oficial da Casa Branca sobre a implementação de novas tarifas comerciais que afetariam produtos brasileiros.
A iniciativa dos parlamentares visa, entre outros pontos, a se contrapor à estratégia de Flávio Bolsonaro, que previamente havia capitalizado em cima da decisão americana de classificar as maiores facções criminosas do Brasil como organizações narcoterroristas. Agora, o senador tenta mitigar o desgaste de ser diretamente associado a um “tarifaço” que exibe claras digitais de sua família.
Deputados buscam apoio nos EUA contra Bolsonaro e tarifaço
Dados de um levantamento conduzido pela Palver revelaram que 81% das manifestações opinativas acerca do tema, coletadas em grupos públicos, responsabilizam Flávio Bolsonaro pelo agravamento das tensões nas relações entre Brasil e Estados Unidos. A delegação brasileira em Washington é composta por figuras proeminentes como Pedro Uczai (PT-SC), líder do PT na Câmara; Jandira Feghali (PCdoB-RJ); André Janones (Rede-MG); e Pedro Campos (PSB-PE). Embora a agenda oficial contemple discussões técnicas com parlamentares democratas sobre combate ao crime organizado e relações comerciais, a viagem também carrega um forte simbolismo eleitoral.
Conforme registrado em vídeo pelos membros da comitiva em frente ao Congresso americano, o deputado André Janones expressou abertamente o propósito de “arrancar a máscara do Flávio Bolsonaro” nos Estados Unidos. Os deputados brasileiros informaram terem levado consigo uma série de documentos e materiais públicos, incluindo reportagens e bases de dados, para solicitar a colaboração dos democratas em investigações sobre uma suposta rede criminosa nos EUA. Esta rede estaria conectada a Daniel Vorcaro, que era proprietário do extinto Banco Master, e a estruturas financeiras associadas à gestora Reag Investimentos. Fundos sob suspeita de ligação com a lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) e agentes políticos com vínculos familiares a Bolsonaro também são citados como parte da investigação.
O “caso Master” figura como a maior fraude financeira registrada na história do país, culminando na liquidação da instituição pelo Banco Central e gerando expressivos rombos financeiros em entidades como o Banco Regional de Brasília (BRB) e em fundos de previdência de diversos municípios e estados brasileiros. A dimensão desse escândalo tem tido um impacto devastador na reputação de figuras políticas que mantinham proximidade com Vorcaro.
Os parlamentares brasileiros sugerem uma possível triangulação financeira transnacional. Eles mencionaram o pedido de R$ 134 milhões feito por Flávio Bolsonaro a Vorcaro, conforme revelado pelo Intercept Brasil, destinado a financiar a produção de um filme biográfico sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Parte desses recursos, alegam, foi direcionada a um fundo no Texas administrado por Paulo Calixto, um advogado próximo a Eduardo Bolsonaro, irmão do senador e pré-candidato. Um documento divulgado pela comitiva aponta a hipótese investigativa central de uma possível utilização dos Estados Unidos “como etapa de ocultação, dissimulação ou integração de valores originados de crimes antecedentes investigados no Brasil”.
Além da estratégia de desgastar a imagem de Flávio Bolsonaro, visto como o provável principal oponente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas próximas eleições, a viagem focou em outros dois temas que causam preocupação ao Palácio do Planalto: o crime organizado e as tarifas comerciais. A deputada Jandira Feghali destacou, no mesmo vídeo, a intenção de pedir “várias coisas”, apresentando insumos e dados sobre o Brasil, com o objetivo de intensificar a cooperação, e não a intervenção. “Queremos pedir o cancelamento das tarifas contra o Brasil”, declarou Feghali.
Imagem: Pedro Campos via infomoney.com.br
A proposta dos deputados é obter o apoio dos congressistas norte-americanos para averiguar uma potencial contaminação de recursos financeiros. Tais recursos teriam circulado entre Vorcaro, o Banco Master e fundos vinculados à Reag Investimentos, estruturas já mencionadas em inquéritos sobre lavagem de dinheiro atribuída ao PCC. A relação da gestora Reag com a facção criminosa foi tornada pública em 2025 pela Operação Carbono Oculto, considerada a maior operação contra o crime organizado já realizada no Brasil, que contou com a colaboração de órgãos como a Receita Federal e o Ministério Público de São Paulo.
O sistema de pagamentos Pix também esteve em pauta. Conforme explicitado por Pedro Uczai em suas redes sociais, o Pix foi citado pelos Estados Unidos como uma das justificativas para a proposta de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, após uma análise comercial realizada pelo Escritório de Comércio dos EUA. “Queremos manter relações comerciais com os Estados Unidos, mas sem intervenção, sem tarifaço, e sem querer eliminar o nosso Pix, que é patrimônio nacional”, afirmou o deputado. Importante salientar que, desde 2022, o governo dos EUA implementa tarifas em casos onde um país oferece subsídios que prejudicam a indústria americana, sendo uma dessas justificativas a estrutura de apoio governamental que levou à adoção e popularidade do Pix. Mais detalhes sobre a política comercial dos EUA podem ser encontrados no portal oficial da United States Trade Representative (USTR).
Por fim, o bolsonarismo defende há mais de um ano o enquadramento do PCC e do CV como organizações terroristas, argumento que faz parte de seu discurso pela intensificação do combate ao crime. Especialistas em segurança pública, autoridades e o governo Lula se opõem a esta medida. A preocupação é que tal classificação poderia abrir caminho para uma possível interferência militar estrangeira em território brasileiro, sob a alegação de combater o terrorismo, e até mesmo resultar em sanções econômicas internacionais.
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